Instituto Malleus Dei
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Sínteses de artigos publicados entre 1999 e 2010 no Clarim e no Jardim Clonal.
O Último dos Pais
Síntese de artigo publicado no Jardim Clonal, novembro de 2004.
Houve um tempo tão antigo que precede a memória dos próprios templos, e nele o poder não usava rosto de homem. Nas tábuas de barro guardadas entre os dois rios, muito antes que os deuses se organizassem em cortes e genealogias, a força que fazia germinar o grão e abria o ventre das águas não pedia licença a pai nenhum. O patriarcado não é a ordem natural do mundo. Convém lembrar disso quando alguém o disser, com a voz mansa que as coisas duras costumam ter.
Não é, e nunca foi.
Foi inventado tarde, e como toda invenção humana também pode ser desfeita.
Levou séculos, e não poucas feridas, para que aprendêssemos que as palavras não descrevem o mundo. Elas o moldam. A ideia que instala o homem como cabeça e a mulher como corpo nunca foi observação de coisa alguma. Foi um encantamento, repetido das leis às canções de ninar até assumir o disfarce tranquilo da verdade, e com ele se ergueram casas onde uma só pessoa decide por todas as outras. A esse arranjo deram o nome de harmonia. Mas a casa é uma coisa viva, tão viva quanto a terra, e nenhuma coisa viva tolera por muito tempo um dono único sem começar por baixo a apodrecer.
O que estudamos sob o nome de Divino não tem sexo. Nas poucas vezes em que o imaginaram com sexo, imaginaram-no sendo os dois ao mesmo tempo, o andrógino de duas faces, o Ein Sof que não se deixa repartir. Fazer do masculino o senhor do feminino é um engano antigo, e é contra esse engano, e não contra nenhum homem de carne, que trabalhamos. Trabalhamos com um cuidado que talvez surpreenda, porque não nos interessa pôr a mulher no lugar exato em que estava o homem. Isso seria apenas erguer um novo senhor sobre a mesma casa. Interessa-nos que a casa volte a ter muitas vozes, e que o seu governo se reparta como se repartem as raízes de uma árvore, sem que nenhuma delas se julgue o tronco.
Talvez o mais difícil não seja derrubar o pai que reina fora de nós, nas instituições e nos livros dos homens, mas o outro, aquele que cada um carrega calado por dentro, adestrado desde cedo a obedecer e a mandar na mesma medida. A travessia que propomos começa nesse ponto quase invisível, numa desobediência íntima e sem estardalhaço, quando se reconhece que a dignidade não se reparte segundo o sexo e que o cuidado da casa não é serviço natural de ninguém. Uma ética que mereça esse nome se sustenta sem trono no alto e sem dono na sala. Quando o último desses deuses enfim cair, e ele há de cair, porque nada que se levanta sobre o medo dura para sempre, o que restará não será o caos que tanto nos prometeram para que continuássemos obedientes. Será, por fim, a manhã.
A Centelha que Não Cabe
Síntese de artigo publicado no Clarim, março de 2001.
Ensinaram-nos cedo a nos fazer pequenos, e a isso deram o nome de virtude. A criança que responde bem aprende a baixar os olhos, quem sabe alguma coisa aprende a duvidar do que sabe, e aos poucos todos se convencem de que há algo indecente em existir por inteiro. A modéstia que nos venderam quase nunca foi humildade. Foi um treino para caber, e quem aprende a caber bem demais termina por esquecer o tamanho verdadeiro daquilo que é.
E o tamanho é grande, sem exagero. As tradições que estudamos, das que sussurraram theosis nos pátios gregos às que falaram do melammu, o brilho que emana de quem se aproxima do divino, sempre souberam que o humano carrega uma centelha que nada tem de modesta. Fingir-se menor diante dessa centelha tem pouco de reverência e muito de uma mentira mansa, e a mentira cobra o seu preço, que é o esquecimento lento de si.
Há uma forma de modéstia que se disfarça de espírito e é apenas medo do corpo. Ensinaram que cobrir-se e esconder-se aproxima do sagrado, como se a carne fosse uma falta a corrigir, quando é a própria morada do que somos. O corpo não carrega culpa alguma por existir, e vesti-lo ou desvesti-lo é escolha de quem o habita, nunca dever imposto de fora. Também não há divisão natural entre os sexos que decida o que cada um pode ou não vestir; essa linha foi traçada por mãos humanas e, como toda linha traçada por medo, pode ser apagada. O andrógino que tantos povos sonharam nunca pediu permissão para ser inteiro.
Convém desfazer com calma a confusão entre isso e vaidade. A vaidade precisa dos olhos dos outros; a grandeza de que falo dispensa plateia e se sabe inteira mesmo no escuro, sem ninguém para confirmá-la. O trabalho começa quando a pessoa deixa de pedir licença para ocupar o próprio lugar e passa a habitá-lo com a naturalidade de quem enfim lembrou de algo muito antigo. Não pregamos o orgulho, que é outra servidão, apenas de muros mais vistosos. Pregamos o fim de uma humildade que serve menos a quem a pratica e mais a quem lucra em tê-lo obediente. Quando lhe pedirem modéstia, pergunte em silêncio a quem a sua pequenez aproveita.
O Corpo é a Porta
Síntese de artigo publicado no Jardim Clonal, agosto de 2006.
Houve sempre quem acreditasse que o caminho para o alto passa por castigar o que está embaixo, e por baixo entenderam o corpo, a terra e o prazer, tudo o que tem peso e sente. Jejuaram contra a fome que os fazia humanos, feriram a carne que os sustentava e trataram o mundo como um obstáculo a vencer, quando o mundo é o lugar onde o divino escolheu se mostrar. Estudamos essa tradição com respeito, e ainda assim discordamos dela na raiz.
Discordamos porque não vemos a matéria como cárcere. A terra é viva sob os pés, o seu fogo interior corre pelas mesmas veias que o Mundus Subterraneus tentou desenhar, e o corpo que você habita é feito da mesma substância dos astros que admira de longe. A revelação natural, a mais antiga de todas, chega pelos sentidos, e quem os embota fecha o próprio acesso ao sagrado. Um corpo bem cuidado é a via pela qual o divino costuma entrar, e maltratá-lo apenas emperra a passagem.
Há uma diferença que importa entre disciplina e mortificação. A disciplina cuida do corpo para que ele sirva; a mortificação o ataca por desconfiar dele. Buscamos moksha e devekut sem desprezar o corpo que sente nem o chão que sustenta, porque a subida que renega o lugar de onde parte costuma chegar a lugar nenhum. Reencantar o corpo é devolvê-lo à antiga correspondência com o cosmos, e essa correspondência nunca precisou de sangue nem de fome para acontecer.
Ninguém Sobe pela Fome
Síntese de artigo publicado no Clarim, junho de 2008.
Poucas mentiras foram tão úteis a tão poucos quanto a que transforma a miséria em mérito. Disseram aos pobres que a sua pobreza os aproximava do alto, disseram aos que sofrem que a dor os purificava, e quem repetia essas frases raramente dormia com fome. A romantização do sofrimento é uma anestesia distribuída de graça para que a injustiça não doa o bastante a ponto de ser mudada.
Não há santidade na privação. Há apenas privação, e o desperdício de vidas que poderiam florescer se tivessem o que lhes falta. Aquilo que uma pessoa consegue de fato ser e fazer depende das capacidades reais que o mundo lhe permite, e nenhuma virtude nasce de tirar-lhe essas capacidades para depois chamar a falta de bênção. Quem admira a resignação do faminto quase nunca troca de lugar com ele.
Isso não defende a ganância, que adoece por excesso assim como a miséria adoece por falta. O que recusamos é uma filosofia do conforto alheio, aquela que precisa de mártires para poupar os poderosos do incômodo de repartir. O sofrimento, quando vem, às vezes ensina; ensiná-lo como destino desejável é crueldade que se disfarça de sabedoria. Buscamos uma dignidade que não peça licença à pobreza para existir, e uma ética que se sustente sem prometer recompensa depois da morte para os que aceitam sofrer agora.
O Portão que Nunca Esteve Trancado
Síntese de artigo publicado no Jardim Clonal, abril de 2002.
Toda seita começa com uma cerca. Alguém traça uma linha no chão, chama de dentro o que fica de um lado e de fora o que fica do outro, e a partir daí passa a confundir a linha com a verdade. As guerras de fé quase nunca foram sobre o divino, que não cabe em cerca nenhuma; foram sobre quem tinha o direito de guardar o portão.
Estudamos as tradições ao contrário de quem as separa. Onde o sectário vê muros, procuramos as passagens. A cabala anterior ao Zohar, com as trinta e duas vias do Sefer Yetzirah e a subida pelos palácios da Merkabah, mostra que cristianismo, judaísmo e paganismo são reflexos recursivos de uma mesma Fonte, e que cada um guarda escondidos os outros dois. O que o grego chamou de nous o árabe reconheceu em ma'rifa, com nomes que mudam sem que mude aquilo para onde apontam.
Não pedimos que ninguém abandone a sua tradição, apenas que pare de tomar a própria cerca pelo horizonte. Quem chega ao alto de qualquer das montanhas encontra o mesmo céu, e discutir de qual encosta se subiu é ocupação de quem ainda não subiu. O sectarismo é a forma religiosa do medo, o medo de que a minha verdade seja pequena demais para caber ao lado da sua. A Fonte não tem donos, e o portão que tantos morreram guardando nunca esteve trancado.
Nada é Sem Entendimento
Síntese de artigo publicado no Clarim, outubro de 2009.
Não existe o bem, e não existe o mal. Existe a natureza, que segue o seu curso sem consultar as regras que os homens escreveram e penduraram nas paredes. As morais que se dizem absolutas mudam de rosto conforme o século e o lugar, e o que numa margem do rio já foi virtude, na outra já foi crime. Quem promete uma lei eterna do certo e do errado promete algo que nunca existiu, e costuma cobrar caro pela promessa.
Isso assusta quem foi criado para obedecer, e convém dizer logo o que não estamos dizendo. A ausência de uma moral absoluta não é licença para ferir. Ferir alguém por prazer, sem necessidade, não quebra regra sagrada nenhuma, porque não há regra sagrada; fere algo mais sério, que é a inteligência. A crueldade gratuita é burrice antes de ser maldade, um desperdício de força que nada constrói e nada compreende.
Há um tempo e um lugar para a ordem, e há um tempo e um lugar para o caos, e a sabedoria antiga sempre soube passar de um ao outro sem se prender a nenhum. O que não se alterna, o que permanece enquanto tudo o mais gira, é o entendimento. Nada é sem entendimento, e nada existe sem lógica, nem a estrela que nasce nem a que se apaga. Por isso medimos os atos pela inteligência que os atravessa. O que compreende, ordena; o que fere à toa, apenas se perde.